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DISCRIMINAÇÃO

(Luís Fernando Veríssimo)


Acho uma odiosa discriminação nós motoristas sermos obrigados a preencher requisitos cada vez mais complicados para ganhar uma licença de dirigir enquanto que nada sequer parecido é exigido do pedestre. E é um fato comprovado que, por exemplo, em cerca de oitenta por cento dos atropelamentos há um pedestre envolvido. (Cachorros vêm em segundo lugar.) Por que esse privilégio? O pedestre é parte atuante do trânsito de uma cidade, existe em muito maior quantidade do que carros, e no entanto não há uma única lei regulando a sua movimentação e as suas obrigações. Qualquer pessoa, literalmente, pode ser pedestre! Basta sair na rua. Até quando as autoridades fecharão os olhos a esse inexplicável favoritismo?

Agora mesmo, formam-se filas intermináveis de automóveis esperando sua vez de serem vistoriados no Departamento de Trânsito, para poderem renovar suas licenças. É um espetáculo doloroso. Seus motoristas, não raro, são alvo de cruéis manifestações de desprezo por parte de pedestres insensíveis, que passam arrogantemente, certos dos seus privilégios. E por que não exigir vistoria de pedestres, também? Tem gente circulando por aí sem as mínimas condições para tal, com problemas que vão desde o calo e o pé chato até o daltonismo e a ausência de um ou mais membros. A falta de uma minúscula lâmpada pode ser fatal para o motorista na vistoria, mas o pedestre vai onde quer, impunemente, às escuras, sem qualquer tipo de sinalização. E até de uma carroça se exige, no mínimo, uma lanterna! Um automóvel, para passar na vistoria, precisa ter pneu sobressalente em bom estado, extintor de incêndio regulamentar, o diabo! Que equipamento precisa ter um pedestre? Nem sequer um par de sapatos de reserva. Nem cordão sobressalente para o sapato! É intolerável isto.

Um exame psicotécnico bem aplicado eliminaria, seguramente, metade dos pedestres das nossas ruas. E cada pedestre, para ser licenciado, deveria passar por um exame de habilidade igual ao que é feito para o aspirante a motorista. O exame consistiria de testes de rapidez, flexibilidade, jogo de pernas e travessia da Farrapos (o nome de uma avenida), os feridos tentariam de novo depois da convalescença, os mortos seriam automaticamente desclassificados. Grande parte dos atropelamentos se deve à imperícia ou à falta de preparo físico do pedestre.

Quanta valiosa lataria de automóvel ainda precisará ser sacrificada contra o
corpo de maus pedestres até que as autoridades se movimentem contra esta iniqüidade?

Uma campanha publicitária para conscientizar o pedestre do perigo que ele representa (“Não faça do seu corpo uma arma, a vítima pode ser um Mercedes“) não estaria fora de propósito. O fato é que severas providências se impõem. Surgem cada vez mais pedestres no mercado, consumindo cada vez mais oxigênio, e nossas cidades simplesmente não estão preparadas para recebê-los. Qualquer dia não haverá mais lugar para um automóvel se mexer!

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